top of page

Uma historia de Rojava

  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

por Klara




Estas breves linhas, retiradas do diário de uma jovem internacionalista em Rojava, nos contam os primeiros momentos do avanço do HTS (Hayat Tahrir al-Sham, principal milícia jihadista que assumiu o controle de Damasco em dezembro de 2025) e do Estado Islâmico em direção à AANES (Administração Autônoma Democrática do Nordeste da Síria — estrutura de autogoverno de Rojava).


Em janeiro de 2026, após pesados ataques contra a população dos bairros de Sheikh Masqsoud e Asrafiye em Aleppo, as milícias jihadistas do governo visaram toda Rojava. Apesar de um acordo entre as forças do governo de transição sírio e as SDF (Forças Democráticas da Síria), pelo qual as estruturas militares da DAANES se realocariam para fora das áreas de maioria árabe de Deir Ez Zor, Tabqa e Raqqa, em 18 de janeiro de 2026 as milícias jihadistas atacaram toda a população civil e as estruturas militares enquanto estas evacuavam a área.


Milhares de civis foram massacrados, milhares foram sequestrados, e milhares ainda estão desaparecidos.


Naquela mesma noite, 18 de janeiro, centenas de jovens se uniram a comboios rumo à região de Hesekê para deter o avanço jihadista e defender sua terra e seu povo.


18 de janeiro de 2026

Eu e outro camarada alemão estamos dirigindo para Hesekê. Anoitece e a tensão paira no ar. O inimigo avançou até os limites da cidade e partimos para nos juntar às estruturas médicas. Apenas alguns carros seguem na mesma direção que nós. Encontramos refugiados de Tabka e de Raqqa, e famílias de Afrin que fogem das gangues que se aproximam. Analisamos a situação, trocamos conhecimentos médicos e tentamos aliviar um pouco a tensão. Parece que estamos dirigindo para dentro de uma tempestade que se avizinha, mas o entusiasmo e a tensão se alternam. Os ataques, os massacres, a questão de como estão nossos amigos nas áreas atacadas — tudo isso se alterna com uma insubmissão enraizada, uma recusa em ceder mais um metro desta revolução a essas gangues. Na minha cabeça há uma voz que não para de dizer: “Chega. Custe o que custar, devemos fazer tudo o que pudermos para detê-los.”


Nossas conversas giram em torno de questões médicas e nossa defesa: o que podemos esperar, ao que devemos prestar especial atenção? Quando chegamos à clínica, há um turbilhão de atividade. Pessoas feridas que passaram por cirurgia e estão em condição estável são encaminhadas para outras cidades, e ambulâncias não param de passar a toda velocidade. Somos calorosamente recebidos pelos nossos amigos e, pouco tempo depois, também ajudamos a colocar amigos feridos nas ambulâncias. O lugar onde estamos fica perto da linha de frente, então tentamos manter o menor número possível de amigos aqui. Muitos amigos foram emboscados durante a retirada de Şedadê e Deir ez Zor. Carros continuam chegando e ajudamos onde podemos.


Após algumas horas, tudo se acalma e podemos visitar amigos das unidades militares. Conhecemos alguns deles; outros encontramos pela primeira vez. Sentamo-nos juntos com amigos da YPJ (Yekîneyên Parastina Jin — Unidades de Proteção das Mulheres), tomamos chá e nos maravilhamos com os encontros que esta revolução torna possíveis. Nós, dois internacionalistas vindos da Alemanha, nos sentamos em volta de um aquecedor com amigos árabes, assírios, armênios e curdos de todas as regiões de Rojava. Fica cada vez mais tarde: minutos de conversa, olhadas para as notícias e a vigia no telhado se alternam. Todos aguardamos ansiosamente o que as próximas horas trarão. Depois de algumas horas, o sono acaba por tomar conta. Fecho os olhos por algumas horas.


Enquanto estou no telhado da clínica, olho para o nascer do sol. Deixo meu olhar vagar, observando movimentos suspeitos e perdido em pensamentos. Vim para Rojava porque vejo seu autogoverno, sua ideologia de libertação das mulheres e a coexistência de tantos povos como um exemplo para o mundo inteiro. Para mim, Rojava é um lugar de onde a esperança brilha, como os primeiros raios de sol que atravessam as nuvens após um aguaceiro. Os ataques atuais são um ataque a essa esperança.


De longe, ouço o ronco de caças que circulam acima de nós. Aeronaves da Coalizão monitorando o traslado de combatentes do EI1. Talvez para que possam ser presos em outro lugar, talvez para que os EUA possam mais uma vez montar um exército mercenário de islamistas — quem sabe ao certo? Aperto os punhos e encaro com raiva os caças que fazem círculos. Meu amigo ao meu lado ri e me dá um tapinha no ombro. “Dev ji wan berde” (algo como “Não se preocupe com eles!”). Aceno com a cabeça e ele continua: “Ninguém nos dará nossa liberdade; só podemos contar conosco mesmos. Na nossa força, na da sociedade e em nossas convicções.” Sorrindo, olhamos ao redor. Veículos blindados da YPG (Yekîneyên Parastina Gel — Unidades de Proteção do Povo) e da YPJ passam, músicas revolucionárias estrondando dos alto-falantes, o vento carregando os sons até nós. Nos telhados ao redor, muitos outros amigos estão de vigia, assim como nós. Atentos, determinados, prontos.


Várias semanas já se passaram, e a vida na cidade está lentamente voltando ao normal. Várias semanas já se passaram, e a vida na cidade está lentamente voltando ao normal. Agora que o acordo de integração1 foi concluído, todos tentam entender o que isso significará na prática, como podemos defender as conquistas da revolução e garantir que a transformação da sociedade continue. Os ataques visavam colocar os povos de Rojava e da Síria uns contra os outros; a resistência aqui, em todas as partes do Curdistão e em todo o mundo, nos deu a oportunidade de deter o derramamento de sangue por ora.


Nas últimas semanas tive a chance de conhecer muitas pessoas diferentes; juntos lutamos, choramos, rimos e sonhamos. Amizades forjadas em tempos e circunstâncias assim sempre terão um significado especial. Durante essas semanas, em que compartilhamos experiências tanto difíceis quanto descontraídas, uma coisa também ficou clara para mim. Não importa quais ataques e obstáculos ainda possam estar à nossa frente — se vivermos e nos empenharmos com esperança e determinação, então podemos criar algo maravilhoso em quaisquer circunstâncias.



[1] No final de janeiro de 2026, foi alcançado um acordo entre os EUA e o governo interino sírio para transferir milhares de combatentes do EI das prisões sírias para as iraquianas, por meio da chamada “Coalizão Global para Derrotar o ISIS” [nota dos editores].


[2] Um acordo foi alcançado no final de janeiro entre as Forças Democráticas da Síria e o Governo de Transição sírio. O acordo prevê um cessar-fogo imediato e a integração gradual das estruturas militares, administrativas e civis da administração autônoma ao Estado [nota dos editores].

Comentários


bottom of page