¡Somos todas YPJ!
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Mobilização Internacional em Defesa das Unidades de Proteção das Mulheres de Rojava

Desde o acordo de 29 de janeiro entre as Forças Democráticas Sírias e o Governo de Transição Sírio, a violência física migrou para a arena política, o mesmo espaço do qual as mulheres foram sistematicamente excluídas ao longo de quase toda a história registrada. Embora, por mais de uma década, as mulheres do Norte e Leste da Síria tenham trabalhado para construir um sistema que as incluísse em todas as dimensões da vida pública, suas conquistas estão sob ameaça direta dos interesses de Estados governados por homens patriarcais. Em resposta à crescente ameaça, a Plataforma Conjunta dos Movimentos e Organizações de Mulheres lançou uma série de campanhas para proteger seus direitos e dar visibilidade às suas realizações.
Mulheres defendem as Unidades de Proteção das Mulheres
Em 26 de abril, no Estádio 12 de Março em Qamishli, a Plataforma Conjunta dos Movimentos e Organizações de Mulheres de Rojava e da Síria anunciou uma campanha em apoio às Unidades de Proteção das Mulheres — YPJ (Yekîneyên Parastina Jin, em curdo) — sob o lema: "Somos todas YPJ! A autodefesa é nosso direito natural."
Inúmeros grupos, organizadores, ativistas, intelectuais e aliados se reuniram no evento, entoando palavras de ordem em favor das forças armadas exclusivamente femininas e empunhando bandeiras da Kongra Star. Fiel ao compromisso da Administração Autônoma com a diversidade das populações que representa, a Plataforma divulgou sua declaração em três línguas (curdo, árabe e siríaco) exigindo o reconhecimento oficial das YPJ como força armada regular no âmbito do Ministério da Defesa sírio e sublinhando a urgência de proteger os direitos das mulheres.
"Ao longo dos últimos anos, as YPJ foram uma das forças mais destacadas no combate ao terrorismo, dando um exemplo excepcional na defesa da humanidade, da dignidade e da liberdade", dizia a declaração, ressaltando o alto preço pago pelas combatentes em seu esforço de proteger a sociedade síria e a humanidade como um todo.
A Plataforma Conjunta convocou todos os movimentos e organizações de mulheres, forças democráticas e a sociedade no Curdistão e em todo o mundo para apoiarem a campanha e se solidarizarem com as YPJ. O chamado não tardou a reverberar.
O apoio global
Em Rojava, as Jovens Internacionalistas aderiram à mobilização online. "Hoje, as YPJ declaram seu compromisso em assegurar o futuro de uma Síria democrática e livre e em defender as mulheres", afirmou uma de suas integrantes em vídeo publicado no Instagram, conclamando todas as forças democráticas a fazerem o mesmo. A TAJÊ, movimento de liberdade das mulheres yazidis no Norte e Leste da Síria, declarou solidariedade profunda com as YPJ. A Organização para a Autoconfiança das Mulheres anunciou seu apoio integral às YPJ. Em 6 de maio, centenas de pessoas foram às ruas de Qamishli para se manifestar a favor da integração das YPJ ao exército sírio, dos direitos das mulheres e da democracia.
Uma semana antes da manifestação, a organização Mulheres em Defesa de Rojava (Women Defend Rojava - WDR) lançou sua própria campanha em defesa das conquistas das mulheres na região: a participação política conquistada contra todas as resistências, a educação voltada para a igualdade social e cultural, o modelo de auto-organização que promove uma vida democrática e ecológica. Desde 21 de abril, a organização vem publicando artigos e vídeos nas redes sociais explicando o sistema construído ao longo de mais de uma década e demonstrando sua importância. "Desde o início da guerra de agressão, em 6 de janeiro, as mulheres e suas instituições têm sido sistematicamente atacadas, encabeçadas pelo Governo de Transição Sírio e pelo Estado turco", afirma a WDR, conclamando outras e outros a se somarem ao chamado.
A resposta feminina chegou de todos os continentes. Mulheres da Polônia, da Catalunha e da Itália aderiram à campanha como grupos e como indivíduos, traduzindo materiais, tecendo redes e realizando ações de solidariedade. Na Bélgica, mulheres de Bruxelas conectaram as lutas dos trabalhadores do 1º de Maio com a luta pela libertação das mulheres em Rojava e no mundo, enviando apoio às YPJ. Um coletivo italiano formado por vários grupos elaborou uma declaração de solidariedade, empunhando bandeiras das YPJ e segurando uma faixa com os dizeres "Somos todas YPJ", enquanto outras gravaram uma canção coletiva. Mulheres da China expressaram sua solidariedade num poderoso vídeo criado por Mistana, com a trilha sonora “War Fox” (A Raposa da Guerra), composta em 2015 por YuLi especialmente para apoiar as YPJ.
Em seu site, a campanha da WDR, que coordena a resistência internacional em solidariedade à revolução, lista diversas formas de adesão: exibições de filmes, atividades educativas sobre a importância de Rojava, envio de vídeos de solidariedade e participação em eventos online.
"As YPJ são nossa existência, nossa vontade e nossa representação!" cantava uma jovem da região sul do Curdistão, em vídeo compilado de integrantes da Kongra Star em apoio às forças femininas. Desde sua criação, as Unidades de Proteção das Mulheres são muito mais do que uma força militar. Tornaram-se símbolo do potencial real das mulheres, de seu sacrifício e de sua esperança. A dedicação de suas combatentes à proteção dos mais vulneráveis da sociedade e sua determinação em transformar um sistema opressor inspiraram milhões de pessoas ao redor do globo.
"Nosso trabalho não é apenas isto", afirmou Emîne Osê, porta-voz do Comitê de Relações Democráticas e Alianças da Kongra Star, em entrevista à Lêgerîn, referindo-se a tudo o que foi feito até agora. "No futuro, também haverá exposições, teatro, encontros e relatos sobre a resistência e seus anos de luta." Ela acrescentou que esperam que outros grupos, organizações estrangeiras, indivíduos influentes, intelectuais acadêmicos e jornalistas se aproximem desse processo com responsabilidade, porque se trata de uma questão ética e democrática. É a luta de milhares de mulheres que, ao longo de quatorze anos, com imensos sacrifícios, influenciaram a consciência social, protegeram ativamente sua região e resistiram a todas as formas de ataque desumano.
Nos unimos ao chamado: somos todas YPJ!
Nós, da Revista Internacionalista Juvenil Lêgerîn, nos unimos à campanha em defesa das YPJ. A Revista Lêgerîn nasceu da revolução de Rojava, do espírito e da ação de corajosas companheiras que a tornaram possível. Nosso nome é uma homenagem a Alina Sanchez, jovem internacionalista argentina que se integrou às YPJ durante a luta contra o Estado Islâmico, assumindo o nome de guerra Lêgerîn Çîya — "À procura das montanhas", em curdo. Ela atuou como médica em Rojava até ser martirizada em um acidente em março de 2018.
Todas nós compartilhamos a tarefa de construir conexões e solidariedade entre mulheres ao redor do mundo, inspiradas por Alina e por tantas outras como ela. Nos unimos à campanha para defender as mulheres que lutam por todas nós. Podemos todas nos proteger e apoiar mutuamente, lutar juntas e influenciar umas às outras. A luta das YPJ é a nossa luta.



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